UMA REFLEXÃO SOBRE A ATUAL SITUAÇÃO.
COVID-19 / CORONAVIRUS
Entre o virus e a fé.
“É feliz quem a Deus se confia”, assim reza o Salmo 1, e nessa confiança
gostaríamos de viver, em meio às alegrias e dores da vida. Quem tem fé sabe que
pode se apoiar em outra realidade mais consistente. Embora a fé verse sobre
coisas que os olhos não podem ver, isso não significa que elas não sejam até
mais reais que um vírus que se alcança a ver apenas graças a recursos de alta
tecnologia.
A atual pandemia do Covid-19 (coronavírus) tem nos colocado diante da
realidade da fragilidade humana. Muitos acontecimentos do nosso tempo nos têm
feito confrontar a insegurança do viver. Isso acontece desde que o mundo é
mundo. Lembremos, por exemplo, as grandes pestes, que até o século passado
dizimavam milhares de pessoas em pouco tempo. Com o avanço da tecnologia esperávamos
poder superar definitivamente essas “surpresas” nefastas que marcam de luto a
história humana. E eis que novas ameaças surgem, ou ressurgem, e temos que
aprender a lutar de novo contra os inimigos da vida.
Apesar das autoridades insistirem em não se criar um clima de pânico, as
pessoas normalmente reagem com apreensão diante da incerteza que uma situação
assim traz. Muitas das nossas reações têm a ver não apenas com o temor da
enfermidade em si mesma, mas do que ela nos revela. Ela nos coloca diante do
fato de que a vida de todo ser humano é frágil e o seu cuidado não é autônomo.
Ninguém pode se cuidar sozinho. Há uma sadia dependência entre os seres
humanos, onde uns sustentam a vida dos outros. Mas existe uma outra dependência
radical que na sociedade secularizada em que vivemos, temos dificuldade de
acolher. Nossa vida depende de Deus, está sempre em suas mãos. Nossa vida não é
só nossa, ela é dom. Recebemo-la de nossos pais, mas radicalmente a recebemos
de Deus. A confiança em Deus gera a paz, pois os caminhos da providência divina
passam pelos caminhos da humanidade, com suas lutas e dores.
O profeta Isaías, no século VII a.C., lembrava aos seus ouvintes que “a
carne é como a erva e toda a sua glória dura como a flor do campo” (40, 6). Ao
longo de toda a história o ser humano é confrontado com essa realidade e não
tem como escapar dela. É verdade que se pode tentar viver sem se questionar
sobre isso, mas alguns acontecimentos sempre nos levam a refletir sobre o tema.
O momento atual é uma ocasião propícia para que nos detenhamos na importante
reflexão sobre o sentido da nossa vida: vivemos para quem, vivemos para quê?
O Deus em quem acreditamos e que se
revelou em Jesus Cristo é o Deus da vida. São muito oportunas as palavras do
Papa Francisco, que constituem o centro da sua mensagem dirigida aos jovens na
Exortação Apostólica a eles dirigida: “Cristo vive e te quer vivo” (Christus vivit, 1). O Deus em quem
cremos quer a vida das pessoas e, por isso, os cristãos sempre se empenham na
defesa da vida em todos os seus âmbitos: desde a fecundação até o seu fim
natural, valorizando também tudo o que é vida, pois é dom de Deus para uma
humanidade feliz.
A atual crise sanitária pede aos cristãos atitudes de sempre, mas que
podem ser assumidas como compromissos novos. Primeiramente, a confiança em
Deus, que cuida sempre de nós. A oração deve estar presente neste momento. Em
nossas assembleias litúrgicas, na devoção da Via Sacra, nos encontros da
Campanha da Fraternidade e na oração pessoal não pode faltar o clamor a Deus,
para que nos livre do mal e nos ajude a encontrar os caminhos da cura. A
solidariedade para com os sofredores é outra atitude que deve estar ainda mais
presente. E uma solidariedade que nos comprometa também como cidadãos diante
das autoridades, para que o cuidado da saúde seja uma das prioridades nas
políticas públicas. Além disso, o sentido de responsabilidade diante dos irmãos
nos leva a estar atentos às indicações que vêm da parte das autoridades para
estender o cuidado a todos.
Por Dom Gilson Andrade.
Bispo de Nova Iguaçu

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